Homilia do 20º Domingo do Tempo Comum, 41ª semana nacional das migrações

Irmãos e irmãs,

Estamos a celebrar o ano da Fé em comunhão com toda a Igreja e nos propomos como programa,  de viver com alegria o reencontro com Deus.  Sentir a alegria de sermos amados por Deus.

O Evangelho de hoje convida-nos a ter uma fé vigorosa e convicta,  de viver com  radicalidade a missão que Deus nos confiou. Não há meios-termos, Deus convida-nos a um compromisso corajoso e forte.

No evangelho Jesus diz que veio trazer fogo sobre a terra. São palavras fortes e desconcertantes. Lucas coloca estas palavras de Jesus no contexto do caminho para Jerusalém, esse caminho que conduz Jesus ao dom total da sua vida. “Tenho de receber um baptismo, diz Jesus, e estou ansioso até que ele se realize.”

Estamos mais habituados a ouvir palavras de Jesus que falam de paz e de perdão. De ver Jesus que perdoa, que tem compaixão, que cura os doentes e ainda nos diz: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”. Como é que agora ele diz que vem trazer fogo sobre a terra?

Oro, o Fogo representa a destruição, mas ao mesmo tempo, o fogo representa o calor, a luz e a purificação. Na boca de Jesus estas palavras significam que Jesus veio revelar aos homens a santidade de Deus. A sua proposta destina-se a destruir o egoísmo, a injustiça, a opressão que deterioram o mundo, a fim de que surja das cinzas deste mundo velho, o mundo novo do Amor, da partilha, da fraternidade e da justiça.

Como é que isso vai acontecer? Através da palavra e da acção de Jesus e também pela acção e a palavra dos discípulos iluminados pelo Espírito Santo. Os actos dos apóstolos lembram precisamente que no dia de Pentecostes, a infusão do espírito Santo sobre os apóstolos realizou-se em forma de línguas de fogo.

Esta radicalidade no seguimento de Jesus, provoca também divisões, e por vezes até no seio da própria família.

A proposta de Jesus é questionante e interpeladora e não deixa os homens indiferentes. Alguns acolhem-na positivamente, outros rejeitam-na. Alguns vêem nela uma proposta de libertação, outros não estão interessados nem em Jesus e nem nos valores que ele propõe. Evidentemente diante destas situações haverá desavenças e divisões, mesmo no seio da própria família segundo as opções que cada um faz em relação a Jesus.

Jesus convida-nos a não ter medo do mundo e acolher corajosa e coerentemente a proposta do reino.

Estamos também a encerrar hoje a 41ª semana nacional das migrações orientada pelo tema: Migrações, peregrinação de fé e de esperança.

Não é fácil encarar a mobilidade humana, tantas vezes forçadas, como uma peregrinação de fé e de esperança. Isto ajuda-nos a entender que a migração não é apenas a busca do pão que falta no país natal ou na aquisição desenfreada bens materiais, mas que a fé os valores cristãos vividos na terra de origem deve acompanhar o emigrante e encontrar neles força e  o sustento espiritual diante das situações  difíceis em países de cultura e língua diferentes.

Quando era jovem sacerdote, no meu primeiro ministério entre os imigrantes do Luxemburgo, conheci a geração dos migrantes de assalto, pois assim se definiam por terem emigrado clandestinamente, com todas as histórias dramáticas decorrentes.

Contudo levavam consigo também uma fé viva e formaram comunidades fervorosas que davam um belo testemunho de vivência cristã.

Hoje novamente, em suturações diferentes, o drama das migrações se repete motivado sobretudo pela crise que o país está atravessar. Muitos devem procurar sustento em outros países enfrentando igualmente grandes dificuldades para encontrar um trabalho, um alojamento conveniente e adaptar-se no país de acolhimento. Embora a vivência cristão não seja a mesma de trinta anos atrás, os valores da fé cristão são sempre os mesmos e os emigrantes encontrarão neles a força e alento nas suas vicissitudes.

A crise também afecta e fragiliza sobretudo os imigrantes que vivem em Portugal pois são mais facilmente vítimas do desemprego e da pobreza. Esta realidade pode bem ser constatada entre nós. Isto convida-nos a solidariedade e a partilha.

Mas, as migrações não são somente sinónimo de pobreza e de problemas, elas são também sinal de riqueza; Pois o estrangeiro traz-nos sempre algo de novo. A nossa sociedade fica mais enriquecida com a presença das culturas dos outros povos.

Estas experiências podem ser constatadas na nossa paróquia com a presença dos imigrantes de língua portuguesa  e outros que tem parte activa na nossa comunidade paroquial, onde encontram espaço para viver as suas festas e as expressões religiosas próprias de cada cultura. Mas ao mesmo tempo não vivem isolados, formamos todos juntos uma comunidade de fé e procuráramos viver este princípio:  que entre cristãos não há estrangeiros. Evidentemente, tudo isto não é ainda um fato adquirido. Há mais caminho a fazer para aperfeiçoar esta relação de convivência fraterna.

Pedimos a intercessão do Beato João Batista Scalabrini, padroeiro dos migrantes e patrono desta igreja, ele que soube ler os sinais dos tempos e estar bem perto de todo aqueles que eram forçados a emigrar, que nos ajude a ter uma atitude fraterna e acolhedora com relação a todos os migrantes que vimem entre nós, e saibamos formar comunidades unidas e enriquecidas com os valores de uns e de outros.

Pedimos também a protecção do Beato Scalabrini  para todos os emigrantes que estão a passar por  dificuldades de trabalho ou de saúde.

Que o Bem Aventurado Scalabrini toque o coração de todos os emigrantes para que na busca de uma vida material melhor, não percam a fé e nem abandonem  os valores cristãos que dão sentido à própria vida.

Pe Pedro Granzotto

Pároco

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